Safra recorde pode virar dívida recorde
O Brasil se acostumou a celebrar recordes de safra como sinônimo de prosperidade nacional. No entanto, quem percorre o ‘chão de fábrica’ do agronegócio, especialmente nas lavouras de soja, ouve um relato bem diferente do otimismo das estatísticas.
Os produtores de todo o país estão se sentindo o impacto de uma rentabilidade praticamente nula, apesar de produzir mais do que nunca. A sustentabilidade financeira do negócio ficou pelo caminho, esmagada entre o custo operacional e a asfixia do crédito.
A situação é dramática porque não decorre de incompetência técnica. O produtor brasileiro nunca foi tão eficiente — mas hoje trabalha para ‘trocar moedas’.
Vivemos um cenário de juros elevados que drenam o caixa das fazendas. Em um ano eleitoral, a perspectiva de queda da Selic é minada pela preocupação com o gasto público e o aumento da dívida do Estado. Esse aperto monetário não pune apenas o governo; ele tira o fôlego do empresário rural, que se vê obrigado a financiar sua operação a taxas que o ciclo biológico da lavoura não consegue remunerar.
O termômetro real da crise é a deterioração da relação de troca. O poder de compra do produtor derreteu. No caso do fertilizante MAP, a média histórica era de 33 sacas de soja por tonelada; hoje, são necessárias entre 43 e 45 sacas.
Na prática, o agricultor ficou cerca de 30% mais pobre para adquirir o mesmo insumo de sempre. O risco sistêmico é que as safras de 2026 e 2027 podem ser marcadas por uma grave crise de liquidez.